Todos os anos, o mês de julho marca o movimento Julho Sem Plástico (Plastic Free July), iniciativa global criada na Austrália em 2011 que convida pessoas, empresas e instituições a repensar o consumo de plásticos descartáveis. Em Sergipe, a campanha ganha um significado bem concreto. Dados do Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia Sergipe-Alagoas (PMP-SEAL), executado pela Fundação Mamíferos Aquáticos (FMA), mostram, na prática, como o descarte inadequado de resíduos chega ao mar e afeta diretamente a fauna marinha da região.
A poluição por resíduos sólidos, sobretudo plásticos, é hoje uma das maiores ameaças aos ecossistemas marinhos. Estima-se que mais de 460 milhões de toneladas de plástico sejam produzidas todos os anos no mundo. Boa parte desse volume é descartada de forma inadequada e acaba nos oceanos e nas zonas costeiras, onde pode persistir por décadas, ou até séculos (IUCN, 2025).
Para entender como esse cenário global se reflete na costa sergipana, a FMA apresentou, em webinar, o estudo "Ingestão de resíduos sólidos antropogênicos por aves marinhas no litoral de Sergipe em 2024", pesquisa que analisou 156 indivíduos de nove espécies de aves marinhas encalhadas ao longo de 2024, com base em conteúdo gastrointestinal coletado e analisado no laboratório da FMA. O resultado impressiona: 57,7% das aves analisadas tinham resíduos sólidos confirmados no estômago, sendo o plástico rígido o material mais encontrado.
Chama atenção outro dado da pesquisa: não houve diferença estatisticamente significativa na ingestão de resíduos entre espécies, estágio de desenvolvimento (filhote ou adulto) ou sexo das aves, indicando que a quantidade de resíduos no ambiente em que essas aves se alimentam é tão alta que a exposição atinge os indivíduos sem distinção.
O banco de dados de necropsias do PMP-SEAL da FMA, atualizado continuamente desde abril de 2024, ajuda a dimensionar esse problema em duas frentes complementares. Entre abril de 2024 e junho de 2026, foram necropsiados 1.221 animais no litoral sergipano: 1.174 aves e 47 cetáceos. Em 423 desses casos (34,6% do total), a equipe técnica identificou, durante o exame, indício de interação com resíduos sólidos. As aves lideram essa estatística, foram 421 casos, ou seja, 36% das aves marinhas avaliadas tiveram interação com lixo, evidenciado principalmente na ingestão de plásticos. E em 4,3% dos golfinhos a ingestão de resíduos foi confirmada.
Já a confirmação laboratorial, ou seja, a presença de resíduo encontrado dentro do sistema digestório, atestado via coleta do conteúdo gastrointestinal, só é possível quando o estado da carcaça do animal permite. Isso aconteceu em 335 dos 1.221 animais (27,4% da base), já que boa parte dos exemplares chega às equipes em estado avançado de decomposição. Entre esses 335 casos, 173 (51,6%) apresentaram resíduos sólidos confirmados no trato digestivo em análise realizada pelo Laboratório FMA.
Resíduos encontrados em aves marinhas resgatadas na praia pela FMA. Foto: PMP-SEAL / Acervo FMA.
Os dados também demonstram outra triste estatística: 50 animais (4,1% do total) tiveram interação com artefatos de pesca, como redes, cordas e anzóis, representados por 30 aves e 20 cetáceos. O impacto em golfinhos é ainda mais alarmante, 42,6% dos cetáceos da espécie Sotalia guianensis, popularmente conhecidos como botos-cinza, necropsiados no período, tiveram a morte associada ao emalhe em artefatos de pesca.

Esses números só existem porque, todos os dias, equipes de campo percorrem o litoral sergipano registrando encalhes e realizando o resgate ou a necropsia de aves, tartarugas e mamíferos marinhos. O PMP-SEAL integra a rede nacional de Projetos de Monitoramento de Praias e é executado em Sergipe pela FMA, em cumprimento a condicionantes do licenciamento ambiental federal conduzido pelo Ibama para atividades de produção e escoamento de petróleo e gás natural.
Além de gerar conhecimento científico sobre espécies pouco estudadas no Nordeste, esse trabalho contínuo ajuda a identificar padrões de poluição, orientar políticas públicas de gestão de resíduos e reforçar campanhas de sensibilização sobre o descarte correto de plásticos e materiais de pesca. É exatamente esse tipo de mudança de comportamento que o Julho Sem Plástico busca incentivar.
Ave marinha sendo atendida na praia pela FMA. Foto: PMP-SEAL / Acervo FMA.
A mensagem que une os dados científicos à rotina de campo das equipes da Fundação Mamíferos Aquáticos é simples e direta: pequenas escolhas individuais, como recusar um copo descartável, trocar a sacola plástica por uma reutilizável ou descartar corretamente redes e linhas de pesca, ajudam a reduzir a quantidade de resíduos que chega ao mar e, consequentemente, ao estômago de aves, tartarugas e mamíferos marinhos. O Julho Sem Plástico é uma oportunidade simbólica para reforçar esse compromisso, mas o cuidado com o descarte de plástico e materiais de pesca precisa virar hábito o ano inteiro, não apenas em julho.
Ao encontrar um animal marinho encalhado, vivo ou morto, no litoral de Sergipe, a população pode acionar as equipes de monitoramento da Fundação Mamíferos Aquáticos e contribuir diretamente com esse trabalho de pesquisa e conservação.
Ao identificar uma ocorrência, a conduta correta é:
- Manter distância segura e evitar aglomerações no local;
- Impedir a aproximação de animais domésticos, como cães e gatos;
- Registrar a localização exata e, se possível, fotografar o animal;
- Acionar imediatamente a FMA pelo 0800 728 9001.
O acionamento rápido é determinante para que o atendimento seja feito de forma segura e tecnicamente adequada, aumentando as chances de sobrevivência dos animais resgatados com vida.
O Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia Sergipe-Alagoas
A realização do PMP-SEAL é uma exigência do licenciamento ambiental federal, conduzido pelo Ibama para as atividades da Petrobras de produção e escoamento de petróleo e gás natural. O projeto é realizado desde o município de Conde (Bahia) até Piaçabuçu (Alagoas), dividido em três áreas. Sendo a responsabilidade técnica da Mineral Engenharia e execução em Sergipe pela Fundação Mamíferos Aquáticos e Projeto Tamar. Para acionar o serviço de resgate de mamíferos, tartarugas e aves marinhas, vivos debilitados ou mortos, o contato pode ser realizado pelos telefones 0800 728 9001