Mais de 770 encalhes de aves marinhas foram registrados no litoral de Sergipe entre janeiro e meados de maio de 2026, o maior número já documentado para esse período em mais de 15 anos de monitoramento sistemático da costa sergipana. O dado é ainda mais expressivo quando comparado ao ano anterior: durante todo o ano de 2025, foram contabilizadas 492 ocorrências.
O levantamento é realizado por meio do Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia Sergipe-Alagoas (PMP-SEAL), conduzido pela Fundação Mamíferos Aquáticos (FMA), com equipes técnicas percorrendo diariamente toda a extensão do litoral de Sergipe.
A gravidade do cenário se reflete nos índices de mortalidade: 625 das aves registradas em 2026 foram encontradas sem vida, o que representa mais de 80% do total. Os animais resgatados com vida chegam, em sua maioria, em condições extremamente críticas, com debilidade acentuada e esgotamento severo das reservas energéticas, quadro compatível com o intenso desgaste fisiológico imposto pelas longas rotas migratórias.
De acordo com Elaine Knupp de Brito, Médica Veterinária da Fundação Mamíferos Aquáticos, durante a migração essas aves cruzam extensas áreas oceânicas em busca de condições mais favoráveis de alimentação e clima. Algumas espécies realizam travessias intercontinentais, conectando o litoral brasileiro a regiões do Hemisfério Norte e da Europa, fato evidenciado por registros recentes de indivíduos anilhados na Inglaterra e na Espanha que foram resgatados no litoral sergipano. Quando a oferta de alimento é comprometida ou as condições ambientais se tornam adversas ao longo do trajeto, a capacidade de recuperação das aves se reduz drasticamente, aumentando a probabilidade de encalhes, muitas vezes já em estado irreversível.
E os espécimes mortos são encaminhados a exames necroscópicos, fundamentais para a investigação das causas de morte e o monitoramento da saúde da fauna marinha.
Ave marinha encalhada na areia em Sergipe. Foto: PMP-SEAL / Acervo FMA.
Alerta sanitário: influenza aviária exige protocolo rigoroso
O contexto atual impõe atenção não apenas ambiental, mas também sanitária. O Brasil enfrenta uma emergência zoossanitária relacionada à influenza aviária, o que exige critérios rigorosos no manejo de aves silvestres. Nesse cenário, a FMA atua como uma barreira sanitária ativa para o estado de Sergipe, no Centro de Reabilitação e Despetrolização da Fauna Silvestre (CRD-FMA), todas as aves vivas recebidas passam por triagem imediata e são submetidas a testagem laboratorial para influenza aviária.
Até a confirmação do resultado, cada ave permanece em isolamento sanitário, sem contato com outros indivíduos em reabilitação. Somente após a exclusão de risco é que seguem para as etapas de recuperação.
“Todos os resgates e atendimentos de animais marinhos são realizados sob protocolos estritos de biossegurança, com uso de equipamentos de proteção individual e procedimentos específicos para minimizar qualquer risco de disseminação de agentes infecciosos”, afirma a médica veterinária.
O que fazer ao encontrar uma ave encalhada
A orientação da Fundação Mamíferos Aquáticos é clara: não toque, não pegue e não tente socorrer o animal. A manipulação inadequada representa risco à saúde humana, especialmente diante do cenário de influenza aviária, e pode agravar o estado clínico da ave, comprometendo seu prognóstico.
Ao identificar uma ocorrência, a conduta correta é:
- Manter distância segura e evitar aglomerações no local;
- Impedir a aproximação de animais domésticos, como cães e gatos;
- Registrar a localização exata e, se possível, fotografar o animal;
- Acionar imediatamente a FMA pelo 0800 728 9001 ou (79) 99130-0016.
O acionamento rápido é determinante para que o atendimento seja feito de forma segura e tecnicamente adequada, aumentando as chances de sobrevivência dos animais resgatados com vida.
O Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia Sergipe-Alagoas
A realização do PMP-SEAL é uma exigência do licenciamento ambiental federal, conduzido pelo Ibama para as atividades da Petrobras de produção e escoamento de petróleo e gás natural. O projeto é realizado desde o município de Conde (Bahia) até Piaçabuçu (Alagoas), dividido em três áreas. Sendo a responsabilidade técnica da Mineral Engenharia e execução em Sergipe pela Fundação Mamíferos Aquáticos e Projeto Tamar. Para acionar o serviço de resgate de mamíferos, tartarugas e aves marinhas, vivos debilitados ou mortos, o contato pode ser realizado pelo telefone (79) 99130-0016.