No início de abril a equipe do Convênio MAR, formado pela Fundação Mamíferos Aquáticos-FMA e pelo Instituto de Tecnologia e Pesquisa-ITP foi acionada para o resgate de uma Tartaruga da espécie Chelonia mydas, conhecida como tartaruga-verde, que estava encalhada no povoado de Lagoa Redonda, município de Pirambu/SE .

O animal foi encontrado bastante debilitado e desidratado, sendo encaminhado para o centro de reabilitação para melhor avaliação. “Procedemos com exames iniciais, como hemograma e radiografia, e verificamos através dos resultados, que ela apresentava anemia severa, além de leucocitose e alterações tanto nos rins quanto no fígado. A leucocitose indica que o animal está com uma forte infecção e então iniciamos o tratamento”, conta Jonathas dos Santos, Médico Veterinário da FMA.

 

Apesar do tratamento estabelecido o animal não apresentava melhora, sendo que o perfil de encalhe do animal evidenciava características que aumentavam a suspeita por incidência de ingestão de corpo estranho. Em função disso, de acordo com Jonathas, foi preciso estruturar a equipe para uma cirurgia exploratória que teria o objetivo de retirar os possíveis resíduos presentes no organismo do animal, considerados como a fonte da infecção.

Saulo Daniel, que também atua como Médico Veterinário na Fundação, explicou que a decisão de fazer uma cirurgia teve por base a experiência vivenciada em outros pacientes, que também passaram pela reabilitação com o mesmo quadro da tartaruga e chegaram a óbito por não apresentar melhora durante os procedimentos. “A ideia da cirurgia era apenas para analisar se havia resíduos no intestino do indivíduo e, ao abrirmos, encontramos um volume surpreendente. Na porção inicial, encontramos uma obstrução causada por pedaços de corda, plástico e vários outros resíduos de origem antrópica. Todo o resíduo foi retirado do animal, assim como o alimento apodrecido que também foi encontrado. ”, disse ele.

O Grupo de Estudo e Pesquisa para a Conservação de Organismos Aquáticos (GEPOA) foi convidada para participar da cirurgia. Isadora Campos, estudante de Medicina Veterinária na Faculdade Pio Décimo, foi uma das participantes e afirma que a experiência no centro cirúrgico não será esquecida. “Sou apaixonada pela área de cirurgia e faço estágio com pequenos, mas sem dúvidas, acompanhar pela primeira vez uma tartaruga no centro cirúrgico foi inesquecível!  Cada momento presenciado foi enriquecedor para meu futuro profissional. Além de que a surpresa ao encontrar tanto lixo faz repensar o cenário preocupante do oceano e da poluição! ”, disse a estudante.

Após a cirurgia, o animal vem evoluindo bem. A equipe está realizando o devido acompanhamento e afirma que, apesar de ainda estar um pouco apática, a tartaruga progride cada vez mais e isso é fundamental para os próximos passos. De acordo com os Veterinários, a próxima etapa consiste no reestabelecimento do peso corporal do animal e de cuidados como a verificação dos pontos cirúrgicos, manejo de suplementação e na devida alimentação para que ele seja reabilitado com sucesso e possa retornar ao ambiente marinho.

Como a Diretora-Presidente da Fundação Mamíferos Aquáticos, Jociery Parente, ressalta que o processo de reabilitação de uma tartaruga marinha é sempre um desafio. “Em 2017, dos 1343 animais registrados na área de atuação da FMA/Sergipe, apenas 87 deram entrada no Centro de Reabilitação e destes, apenas seis tiveram sucesso. São sempre quadros graves de debilidade e em sua grande maioria relacionado a ingestão de resíduos sólidos. As cirurgias são uma alternativa extrema para que estes animais tenham uma chance a mais de sobreviver. São procedimentos de alto risco e sem muita expectativa de sucesso, mas fazemos tudo o que está ao nosso alcance para minimizar o sofrimento destes animais na tentativa de devolvê-los à natureza”.

Esse caso expõe a situação preocupante a qual a biodiversidade de nossos oceanos está enfrentando e a mudança de hábitos é a solução conjunta que pode trazer uma melhora significativa por meio de atitudes simples e conscientes.

As atividades de Monitoramento de Praias, desenvolvidas pelo convênio MAR, parceria entre a Fundação Mamíferos Aquáticos e o Instituto de Tecnologia e Pesquisa - ITP, fazem parte do Subprograma Regional de Monitoramento de Encalhes e Anormalidades na Área de Abrangência da Bacia Sergipe-Alagoas – PRMEA, medida de avaliação de impactos ambientais exigidas pelo licenciamento ambiental federal, conduzida pelo IBAMA e de responsabilidade da Petrobras.